Diabo Verde
Olhando para a pia, com uns trĂȘs dedos de ĂĄgua parada, eu olho para as instruçÔes da embalagem.
Cuidado, perigoso, aperte a tampa para abrir e mais uma infinidade de coisinhas escritas. BlĂĄ blĂĄ blĂĄ. O de sempre, para que perder tempo lendo? Ă sĂł jogar no ralo e colocar ĂĄgua morna. Pronto.
â QUE PORRA DE PUTA QUE O PARIU DE MERDA Ă ESSA!!!!!
A pequena garrafa plĂĄstica sai voando pelos ares. Afinal, esse Ă© o tipo de reação correta apĂłs o susto de se abrir uma garrafa de desentupidor quĂmico e um pequeno diabo começar a sair de dentro dela.
Ele me olha somente com a sua cabeça para fora da garrafa, do chão.
â Como assim que merda Ă© essa? EstĂĄ escrito na embalagem. O que vocĂȘ acha que eu sou?
O que eu acho que ele Ă©? Eu sei lĂĄ o que eu acho que aquela coisa Ă©. Ă UMA PORRA DE UM DIABO! VERDE!
Ok, um diabinho, afinal ele cabe dentro da garrafa. MAS Ă UM DIABO!!!!!
â O que estĂĄ acontecendo?
Aquela coisinha verde me olhando, se esgueirando para fora da garrafa, quase que entalado nela.
â VocĂȘ nĂŁo parece ser muito inteligente... Geralmente quando vocĂȘs querem algo, quase sempre uma idiotice, acabam chamando um de nĂłs. AĂ vocĂȘ pede, a gente faz a transação e seguimos com a nossa existĂȘncia.
â Como assim????
â O que vocĂȘ quer?
â O que eu quero? Sei lĂĄ, eu sĂł queria desentupir a pia...
Mal acabo de falar, ouço um âblopâ da pia, e o som de ĂĄgua escorrendo.
â Ok, estĂĄ aĂ.
â EstĂĄ aĂ o que?
â VocĂȘ deve ser um dos burrinhos. O seu âgrandeâ desejo. Sua pia, agora desentupida â ele faz um gesto extravagante apontando suas duas mĂŁozinhas para ela.
Olho incrédulo para a pia. Sim, ela estå desentupida. FODA-SE ISSO AGORA! Tem uma porra de um diabo falando comigo!
â Pera aĂ, pera aĂ. O que estĂĄ acontecendo aqui???
â Ai ai ai... O que parece que estĂĄ acontecendo? VocĂȘ invocou um diabo.
Só confusão na minha cabeça. Como assim eu invoquei um diabo?
Ele nota meu olhar perdido em tantas e mais questÔes que até aquele momento não existiam para mim, e aponta para a pequena garrafa no chão.
Eu a pego, sem noção do que fazer.
â VocĂȘ leu? Tudo o que estĂĄ escrito?
Ler? O diabinho quer que eu leia o quĂȘ? Como desentupir um ralo? Para que eu quero ler como usar um desentupidor quĂmico agora????
â Recomendo que vocĂȘ leia tudo.
Mais reagindo do que por ação própria, começo a ler as pequenas letras.
Cuidado, perigoso, aperte a tampa para abrir.
Ao abrir esta tampa, vocĂȘ concorda automaticamente com os termos abaixo*.
Cada garrafa då direito a uma (1) negociação.
Após a negociação ser completada, não poderå ser desfeita, cancelada, anulada, renegociada, chorada ou discutida.
A negociação consiste na troca de um (1) desejo, pela alma imortal do requisitante.
A verbalização do desejo implica a execução imediata da permuta.
A partir desse ponto, a negociação serå considerada formalmente solicitada, mesmo que ocorra:
⹠em tom de reclamação,
âą em momento de estresse,
âą em estado de choque,
âą ou enquanto xinga a embalagem.
A alma negociada serå coletada em data indeterminada, sem aviso prévio, podendo ocorrer:
âą apĂłs o falecimento,
âą durante o sono,
âą ou em um momento de grande inconveniĂȘncia.
A empresa nĂŁo se responsabiliza por:
âą arrependimento tardio,
âą gritos,
âą crises existenciais,
âą nem pela descoberta de que âera sĂł usar um arameâ.
Produto potencialmente corrosivo para bens materiais e imateriais.
Produto infernal.
Manter fora do alcance de crianças, padres e pessoas que leem contratos.
*Ao abrir esta tampa, vocĂȘ declara que leu tudo acima, mesmo sabendo que nĂŁo leu.
Olho incrédulo para tudo aquilo. Que porcaria de contrato infernal eu acabei de ler?!?!?!
â E isso existe, pacto com o diabo???
â VocĂȘ estĂĄ literalmente conversando com um diabo agora. Ainda estĂĄ difĂcil de entender?
â Mas Ă© uma garrafa de desentupidor! Que tipo de pacto infernal Ă© esse?
Ele chacoalha a sua pequena cabecinha.
â Exatamente isso. Um pacto infernal. Do tipo que funciona.
â Mas e as velas, o latim e livros do oculto!
â Ă⊠ninguĂ©m mais vai atrĂĄs disso hoje em dia. Os KPIs despencaram, a taxa de conversĂŁo estava ridĂcula, o funil nĂŁo fechava, o engajamento em invocação ritual caiu trimestre apĂłs trimestre. O market share infernal estava entre os piores dos Ășltimos ciclos. A alta gestĂŁo ficou extremamente insatisfeita. JĂĄ viu um demĂŽnio irritado em call de alinhamento? NĂŁo queira...
A chefia decidiu terceirizar a parte do invocamento, automatizar processos, ganhar escala, atingir mais pĂșblico. Resultado? Reestruturação. Corte de custos. VocĂȘ faz ideia de quantos de nĂłs foram desligados por causa disso???
O que vocĂȘ acha que acontece quando um de nĂłs Ă© desligado?
â MAS Ă UMA GARRAFA DE DESENTUPIDOR!!!!
â NĂŁo, Ă© uma garrafa de âdiabo verdeâ. EstĂĄ escrito â ele fala discordando de mim, em tom sĂ©rio.
â E isso simplesmente vende agora por aĂ? No supermercado?
â Sim! Nossa equipe comercial e de branding Ă© muito eficiente!
Sem acreditar ainda que estou falando com aquela micro coisa encapetada, um Ășnico raciocĂnio lĂłgico grita na minha cabeça â Ă© um diabo! Acaba com isso!
â Olha, eu nĂŁo quero nada com vocĂȘ, pode voltar para a sua garrafinha e ir embora, eu nĂŁo quero nada que vocĂȘ possa oferecer, nĂŁo quero pacto nenhum com o diabo.
â Como assim vocĂȘ nĂŁo quer nada comigo? VocĂȘ abriu a garrafa.
â Eu nĂŁo vou te vender a minha alma!
Ele olha para mim com aquele sorrisinho nojento, e aponta para a pia.
A realização do que estå acontecendo me atinge como um tijolo na cara.
â NĂO!!! NĂO!!!!!!! Espera aĂ!!!! Eu nĂŁo quero nada!!!
â Ă bom vocĂȘ nĂŁo querer âmaisâ nada, vocĂȘ tinha direito a uma transação.
â ESPERA AĂ! â o desespero tomando conta. â VOCĂ QUER DIZER QUE EU ACABEI DE VENDER A MINHA ALMA PELA PORRA DE UMA PIA DESENTUPIDA???
â O termo tĂ©cnico nĂŁo seria vender, Ă© mais para uma permuta. Mas sim, vocĂȘ acabou de me âvenderâ â ele fez aspas com os seus dedinhos???? â a sua alma. Em troca pelo desentupimento do que eu imagino que seja uma pia muito amada pela sua parte.
Ele termina a frase satisfeito demais, como se estivesse explicando uma polĂtica interna que ele nĂŁo criou, mas adora aplicar.
â Mas relaxa â ele completa, ajeitando a gravatinha invisĂvel no pescoço. â A coleta nĂŁo Ă© imediata. A gente nĂŁo trabalha mais com urgĂȘncia. Hoje tudo Ă© assĂncrono.
â ColetaâŠ? â minha voz sai mais fraca do que deveria.
â Da sua alma.
Meu estĂŽmago revira.
â E⊠quando isso acontece?
Ele dĂĄ de ombros.
â Quando o sistema decidir que Ă© o momento ideal. Pode ser daqui a cinquenta anos. Pode ser amanhĂŁ. Pode ser numa terça-feira aleatĂłria, no meio do almoço. A ideia Ă© nĂŁo atrapalhar a experiĂȘncia do usuĂĄrio.
â EXPERIĂNCIA DO USUĂRIO?!?!
â UX Ă© prioridade agora.
Fico olhando para ele, depois para a pia. Limpa. Seca. Perfeita. MAS QUE MERDA DE PIA!
â EntĂŁo Ă© isso? â pergunto. â Eu perdi a minha alma⊠e pronto?
â Tecnicamente permutou, vocĂȘ nĂŁo perdeu. Mas, sim.
â NĂŁo tem alguĂ©m com quem eu possa falar sobre isso?
â Sim, na verdade existe um nĂșmero de call center no nosso produto. VocĂȘ pode ligar para eles. Tenho certeza que eles vĂŁo entender a sua situação, todos eles jĂĄ foram nossos clientes algum dia! Mas duvido que consiga algo. Essa parte do nosso sistema nĂŁo Ă© muito eficiente. A alta gestĂŁo gosta dessa forma.
â E vocĂȘ? Vai fazer o quĂȘ agora?
O diabinho começa a voltar para dentro da garrafa, com dificuldade, se espremendo como alguém entrando num elevador lotado.
â PrĂłxima residĂȘncia. PrĂłximo cliente. PrĂłximo gargalo hidrĂĄulico. A demanda Ă© alta. Se vocĂȘ puder me colocar no lixo reciclĂĄvel, eu agradeceria. AlguĂ©m da equipe responsĂĄvel virĂĄ fazer a retirada.
Antes de entrar completamente, ele enfia a cabeça para fora uma Ășltima vez.
â Ah, sĂł mais uma coisa.
â O quĂȘ?
â Se te interessar, temos outros produtos da linha, a gente estĂĄ expandindo. Talvez ache algo que te interesse. Supermercados, lojas de material de construção, farmĂĄcias. Estamos testando novos canais. E a equipe estĂĄ trabalhando pesado no e-commerce! Teremos novidades em breve!
E entĂŁo ele entra na garrafa, encaixando a tampa com um ploc seco.
Pego a garrafa de diabo verde e tento abrir. Ela nĂŁo cede mais. Lacrada.
A cozinha fica em silĂȘncio.
Eu olho para a pia.
Para a garrafa na minha mĂŁo.
Para o rĂłtulo.
âDiabo verde
Produto infernal.
Manter fora do alcance de pessoas que leem contratos.â
Sento na cadeira, passo a mĂŁo no rosto e solto um riso nervoso.
No fim das contas, eu sĂł queria desentupir a pia.
E consegui.
A ĂĄgua desce perfeitamente pelo ralo...