Aroma de limão
Era um quarto estranho, e ainda assim, comum.
Comum no sentido de não ter nada demais. Não tinha papel de parede, iluminação especial, acabamento chique.
Quatro paredes brancas, cama, armário, cômoda de cabeceira. Era isso.
Estranho no sentido de que ele cheirava. Não um cheiro. Vários. Diferentes. Não ao mesmo tempo, claro. Eu brincava dizendo que funcionava como um difusor de essências.
Eram cheiros leves. Poucas foram as vezes que ficou forte, que dava para perceber de imediato.
Seria um simples caso curioso, se não fossem os eventos que acompanhavam os cheiros. Eram raros e sutis.
Mas havia alguns cheiros que indicavam problemas. Você já sabia o que estava por vir.
E tudo começou com o cheiro de limão.
Uma manhã qualquer eu estava deitado na cama e senti aquele cheiro leve, cítrico.
Limão.
Não é o tipo de coisa que você dá bola, mas me chamou atenção. Alguém fazendo um bolo talvez? Algum produto de limpeza?
Não achei que suco exalasse esse aroma forte a ponto de chegar no meu quarto.
Talvez um bolo? Me levantei para ver se conseguia comer um pedaço.
Cozinha vazia e forno frio. Ninguém. Dei uma volta pela casa, todo mundo dormindo.
E o cheiro havia sumido.
Talvez fosse de algum vizinho?
Qualquer que fosse a resposta, perdi completamente o interesse e voltei para cama, pelo menos podia aproveitar o resto da manhã deitado.
Mas ainda dava para sentir algo, o cheiro leve de limão.
Acabei pegando no sono e cochilei de leve.
Acordei algum tempo depois, com um estalo no quarto. Tentei virar para a direção, ver o que era, mas não consegui me mexer.
Paralisia do sono.
Não conseguia mexer a cabeça, braços, corpo. Só conseguia respirar e mal mexer os olhos.
De novo o estalo. Tentei perguntar quem era. Mal saiu um suspiro da minha boca.
E de novo, aquele cheiro de limão.
Eu não conseguia ver nada, mas podia “sentir” algo se aproximando.
Desesperado eu tentava falar, gritar, me mexer. Mas somente a minha respiração respondia, ofegante. O resto do corpo parecia pertencer a outra pessoa.
Qualquer que fosse a presença pareceu ter parado a meio caminho (não dei de onde) até a minha cama.
E da mesma forma que apareceu aquele cheiro, começou a sumir.
Quando deixei de sentir ele completamente, comecei a sentir meu corpo responder minhas vontades.
Consegui me levantar da cama, assustado. Não havia mais nada no quarto além de mim.
Teria sonhado? Um fragmento da minha imaginação meio sonolenta meio acordada?
Apesar do cheiro ter tido uma presença forte, no momento não liguei ele ao que tinha acabado de acontecer.
Ignorei o fato e a vida continuou.
Outros cheiros apareceram. Álcool, lavanda, gordura, esgoto. Cheiros bons e cheiros ruins.
No início não dei tanta bola, eram somente cheiros. Nossa vida é rodeada de cheiros.
Até que senti novamente aquele cheiro de limão.
Estava quase dormindo. E novamente senti meu corpo parando de responder.
Ouvi o estalo. Naquele momento a minha mente juntou todos os sinais, gritando “perigo!”
O cheiro de limão, o estalo seco, a paralisia, o quase sono.
De novo não consegui ver o que era, mas meu corpo parecia sentir a proximidade do que quer que fosse.
O quarto parecia estalar com o movimento sutil do que quer que fosse aquilo. Parecia um galho quebrando e nem de madeira o chão era feito.
Senti de novo a presença se contendo a uma certa distância. Novamente o cheiro foi ficando fraco.
Minha mente alerta conseguiu retomar controle do corpo aos poucos e novamente pulei da cama, olhando assustado em volta.
Nada. Nem o cheiro de limão.
Nesse momento liguei o que havia acontecido com aquele cheiro.
O que seria aquilo?
Por que eu perdia os movimentos do corpo?
Eu passava por algum perigo real?
Comentei com a minha família sobre os cheiros, ninguém sentia nada.
Pareciam só existir dentro do meu quarto.
Acho que algum trauma se formou associando o cheiro do limão com o evento. Com isso, minha mente parece ter começado a ligar outros cheiros a outros eventos, procurando padrões, tentando racionalizar o impensável.
Cheiro de álcool — eu ia ter uma noite de pesadelos. Sempre tinha uma noite agitada quando sentia cheiro de álcool.
Cheiro de grama cortada (nem tínhamos quintal com grama) — alguma coisa minha sumia. Celular, carteira, chaves, tênis. Sempre encontrei depois, mas tinha que ficar caçando minhas coisas pelo quarto.
Cheiro de esgoto — ouvia barulhos de patas de cachorro andando no “andar de cima”. Era uma casa térrea, não havia “andar de cima”.
Cheiro de morango — esse era bom! Geralmente tinha sonhos sempre muito agradáveis.
Cheiro de lavanda — esse era estranho, meu ouvido entupia.
Era uma lista extensa. Alguns cheiros eu nunca consegui ligar a algum evento.
Mas o cheiro de limão, aquele cheiro me deixava nervoso.
Algumas vezes conseguia sentir ele antes do meu corpo “travar” e conseguia fugir do quarto.
Demorava para voltar para lá, mas quando voltava, às vezes, conseguia sentir o cheiro fraco ainda. E se tentasse dormir, sabia que ia sentir aquela paralisia de novo em algum momento.
Só podia relaxar quando o cheiro sumia completamente.
Fico imaginando o que pode ser isso e por que para próximo à minha cama, sem nunca chegar em mim.
Claro que não quero que isso aconteça.
E hoje em dia, se tem um cheiro que me dá crise de pânico, é cheiro de limão. Não importa onde seja.